29. SONETOS de Bocage

- Arcadismo de Portugal

Nos sonetos de Bocage encontramos a temática da beleza da mulher amada, muito empregada na lírica lusitana desde o Trovadorismo. A valorização da natureza e da vida no campo também é uma recorrência, assim como um certo narcisismo, que tanto pode ser encontrado na lírica quanto na sátira. Paralelamente, nos poemas mais sentimentais e pré-românticos vamos encontrar o aniquilamento do eu, a vontade de morrer, o sentimento de solidão e a busca da compreensão, algumas vezes combinando com a esperança de um descanso em Deus, com uma contrição profunda do pecador arrependido e ainda uma visão pessimista da vida, muito próxima do "mal do século" típico da Segunda geração romântica brasileira. Procure comparar a sua poesia com a de Lira dos Vinte anos de Álvares de Azevedo. Bocage, ao comparar sua vida à de Camões, encontra várias semelhanças: ambos deixaram Portugal, passaram pelo Cabo das Tormentas, estiveram no Oriente, lamentando saudade de um amor distante. Poesia confessional é aquela em que o eu-lírico se confunde com o próprio autor. É aquela em que o poeta se confessa. Para finalizar, é possível também encontrar o tema do próprio fazer poético (metalinguagem), com o autor explicando ou analisando a sua própria poesia.

Um exemplo:

Sonhei que, nos meus braços inclinado,

Teu rosto encantador, Gertrúria (1), via;

Que mil ávidos beijos me sofria

Teu níveo (2) colo, para os mais sagrado.

Sonhei que era feliz por ter ousado,

Que o siso (3), a força, a voz, a cor perdia

Num êxtase suave, em que bebia

O néctar nem por Jove inda libado.

Mas no mais doce, no melhor momento,

Exalando um suspiro de ternura,

Acordo, acho-te só no pensamento.

Ó Destino cruel! Ó Sorte escura!

Que nem me dure um vão contentamento!

Que nem me dure em sonhos a ventura!

  1. Pseudônimo para sua amada Gertrudes
  2. Branco como a neve
  3. Juízo, razão.